Um pouquim de Rilke

Rilke sempre adoça, ilumina, guia…
“Ah, contamos os anos e fazemos cortes aqui e ali e paramos e começamos e hesitamos entre essas opções. Mas quão inteiriço é tudo que nos sucede, e como tem parentesco uma coisa com outra, gerou a si mesma e cresce e é criada para se tornar ela mesma; e temos, no fundo, apenas que estar aí, mas simplesmente, mas insistentemente, tal como a Terra está aí, dizendo sim às estações, clara e escura e totalmente no espaço, não desejando repousar senão na rede de influências e forças onde as estrelas se sentem seguras.”
Rainer Maria Rilke (19 de outubro de 1907, carta para Clara Rilke) in Cartas do Poeta Sobre a Vida.

Quem vem lá?

Lá vem o futuro, prenhe de histórias, gestado no ontem, parido no hoje
Lá vem o incerto, o que está por se construir.
Lá vem a vida, leve, solta, cheia de mazelas e alegrias.
(a foto é do Renato Targa)

da exaustão

ando exausta, mas não páro, não descanso. compromissos, amigos, compromissos. o mundo chama e não há como “ostrar” (ficar quietinha no meu cantinho).
Neste processo que envolve tanto olhar como fazer, estar presente, participar, surgem bolhas de linguagem, pequenos brotos de novidade que vão se colocando no mundo através de mim.
A experiência de hoje foi algo único. Na tentativa de me conter – a boca repetia, baixinho, conceitos durante a aula, surgiram gases. Ai, que vergonha. Veio a imagem, antiga, de uma aula do Corporificando, quando eu aprendi que algumas das minhas expressões eram puro “desperdício” de excitação que poderia me fazer crescer. De novo, molhei os olhos. A tristeza, velha companheira, deu um alívio.
Voltou a dor nos ombros – sinal de muito peso e pouca base, de uma barriga que não está tão contida assim…
Pequenos elementos brotam do fim de semana intenso. Preparação para a semana, cheia de trabalho, pontilhada por esforços que vão além de mim. O melhor é que tudo resulta em satisfação.

Amanhece, perdão!

A ordem vem de cima, do cosmos: perdoa, nega!
Tarefa difícil esta: deixar a memória sumir, esfumaçar o que foi querido, importante.
Dissolve-se a névoa, acontece um segundo amanhecer. O primeiro foi azul. Este agora vem tingir de dourado o dia, enquanto as palavras enfileiram um adeus.
Adeus misturado com outros gostos, outros beijos, outras carnes.
Um tchau em voz baixa, suave, que me faz tremer dentro do dia quente.
Por instantes seguirei só. Um solo de guitarra, de contrabaixo, de clarinete. Orquestra de mulher só que teima tentar ser feliz.
Perdoei? Veremos.
Ciao, goodbye, adieu, arrivederci.