A beleza da fúria

Thunderstorm.

Dias furiosos. Eles aconteceram e não foram poucos.

Do tédio à fúria pura e simples, fúria.

A grande diferença, até ontem, foi a não explosão. Enfurecer e sentir a fúria, uma verdadeira turbina de força e um motor pra fazer o que queria. No caso era nada – e ganhar num determinado lance. Ganhei. Demorou foi pra sentir a alegria da fúria.
Fúria, furiosa, enfurecida.
Foi um aprendizado intenso, profundo e imenso que aconteceu sozinha, em silêncio. Gostei. E junto com a fúria, para minha surpresa, nasce alegria.

 

Foto: Unsplash

Mulher Maravilha e o machismo nosso de todo dia

Saí da terapia e fui ao cinema (finalmente). Queria assistir Mulher Maravilha na tela grande, numa sala escura. Missão cumprida.
Todavia, entretanto, contudo…
Como é que a gente dá conta de viver num mundo de macho?
Impressionante como até quando a personagem principal é uma mulher, o tal do coadjuvante tem que ser homem.

Ela não pode ser a amazona pegadora – que é o destino de toda amazona, aliás. Tem que se apaixonar e ser uma “deusa virgem” [pra entender os arquétipos femininos, recomendo fortemente o livro As Deusas e a Mulher, de Jean Shinoda Bolen].

A heroína encarnada por Gal Gadot é êxtase e dor. Tão bom ver uma mulher chutando bundas. Tão ruim ver na tela, em todos os momentos depois que Diana chega “ao nosso mundo”, o que vivemos todas o tempo todo.

Para quem já se deu conta da extensão e profundidade do machismo, é quase doloroso ver uma deusa ser diminuída como todas nós. Ainda um objeto, um enfeite – mesmo diante de todo o seu poder, força e conhecimento.

A deusa que tem que se apaixonar e ficar uma eternidade encarniçada com um homem (quem de nós nunca, né, amoras?). A deusa que abaixa a cabeça e atende o comando do omi. Por que? Por que?

E, sim, a gente aceita o comando do omi. Seja ele Ares ou um reles mortal. Precisamos? Devemos?

Só quero ver se DC vai dar conta de sustentar a “inovação” e igualar a personagem no Liga da Justiça, previsto pro segundo semestre. Suspeito fortemente que a nossa heroína voltará ao papel reservado a todas nós: secundário, menor, um degrau a menos para Diana Prince.

O filme, como um primeiro passo, é ótimo. Pra Hollywood começar a ganhar pontinhos, tem que soltar um filme por mês com mulher protagonista – forte e poderosa, ok?

A gente sabe que não vai rolar. Até agora, na escala de empoderamento feminino, a Marvel, com Electra e Jessica Jones, tá levando vantagem. A dona Jessica dá de 20 a zero na Mulher Maravilha em termos de liberdade e igualdade.

Adorei o filme. Odeio machismo. Igualdade é fundamental. [e, sim, Diana está certa: nenhuma mulher precisa de homem pra ter prazer, desculpe mr. Freud]

Mulher Maravilha, com Gal Gadot, é um ótimo filme de heroína e ação. E precisamos de mais heroínas. Cadê manas pra construir mais mulheres fodásticas e hipnóticas como Diana? Precisamos.

emoções

Há muito tempo atrás aprendi que emoções são o que nos move. Nosso motor.

São as emoções – e não a lógica, muito menos as intenções – que nos levam à frente, param, enfiam no buraco, jogam para fora do mundo.

Emoções. E mover. motores.

Mais ou menos na mesma época investiguei também as emoções “sombrias”. Raiva, ódio, tristeza.

Hoje de manhã tive que enfrentar o fato de que não, eu não lido bem com emoções.

A bordo da minha armadura (que uso para evitar a dor) me torno insensível. A tudo. E aí está o x da questão.

Como tirar a armadura que visto todos os dias ao sair da cama?

broken heart

ontem eu vi uma cena de partir o coração.
O mendigo, sujo, desgrenhado e barbudo só como pessoas sem teto conseguem ficar, só de calção, ajoelhado, com as duas mãos estendidas em súplica.
Os passantes não se dignaram a olhar o homem na cara.
Meu coração partiu.
E o seu, partiria?

O futuro só vale se for para todos – o papa no TED

Ontem um dos assuntos paralelos na vida em rede foi a fala do Papa Francisco no TED 2017.

Hoje tive a oportunidade de tirar uns minutinhos para ouvir. Gente! Apesar da minha alergia à palavra “deus”, valeu à pena.

Por isso publico aqui a não só o vídeo (você pode escolher a língua das legendas) como a transcrição da fala, em palavras.

0:11
[Sua Santidade o Papa Francisco Filmado na Cidade do Vaticano Exibido no TED2017]

0:15
Boa tarde… Ou bom dia. Não sei que horas são aí. Independente da hora, estou muito animado de participar em vossa conferência. Gosto muito deste tema, “The Future You”, pois, enquanto considera o amanhã, nos convida a abrir um diálogo hoje, para olhar ao futuro através de “você”. “The Future You”: O futuro é feito de “vocês”, é feito de encontros porque a vida flui através das nossas relações com os outros. Alguns bons anos de vida reforçaram minha convicção que a existência de cada um de nós está fortemente ligada à de outrem: a vida não é somente o passar do tempo, mas sim tempo de encontros.

1:27
Ao encontrar, ou escutar aqueles que estão doentes, aos imigrantes que se deparam com dificuldades tremendas em busca de um futuro melhor, detentos que carregam um inferno em seus corações, e aqueles, especialmente jovens, que não encontram emprego, eu me pego pensando: “Por que eles e não eu?” Inclusive, eu nasci em uma família de imigrantes; meu pai, meus avós, assim como outros italianos, foram para a Argentina e se depararam com o destino daqueles que acabam com nada. Hoje, eu bem poderia estar entre as pessoas “descartadas”. E é por isso que sempre me pergunto, do fundo do meu coração: “Por que eles e não eu?”

2:35
Acima de tudo, eu adoraria que esta conferência pudesse nos lembrar que todos precisamos uns dos outros, nenhum de nós é uma ilha, um “eu” autônomo e independente, separado dos outros, e podemos construir um futuro apenas juntos, sem excluir ninguém. Quase nunca pensamos em como tudo está conectado, e precisamos restabelecer nossas conexões para uma boa saúde. Até os piores conceitos que tenho em meu coração contra meu irmão e minha irmã, a ferida aberta que nunca foi curada, a afronta que não foi nunca perdoada, o rancor que apenas machucará a mim, são exemplos de uma batalha que carrego dentro de mim, uma chama dentro de meu coração que precisa ser apagada antes que incendeie tudo, deixando apenas cinzas.

3:38
Muitos de nós, hoje em dia, por motivos diversos, parecemos acreditar que um futuro feliz é inatingível. Enquanto tais preocupações devem ser levadas a sério, elas não são invencíveis. Podem ser superadas quando não trancamos nossas portas para o mundo. A felicidade pode apenas ser descoberta como um presente de harmonia entre o todo e cada uma de suas partes. Até a ciência – e vocês sabem disso melhor que eu – aponta para um entendimento da realidade como um lugar onde todo elemento se conecta e interage com todo o resto.

4:27
Assim chegamos à minha segunda mensagem: Como seria maravilhoso se o crescimento da inovação científica e tecnológica correspondesse a uma maior igualdade e inclusão social. Como seria maravilhoso se ao descobrir planetas distantes, redescobríssemos as necessidades dos irmãos que nos orbitam. Como seria maravilhoso se a fraternidade, esta palavra bela e, por vez, inconveniente, não se resumisse a apenas assistência social, e se tornasse, em vez disso, uma atitude padrão nas decisões políticas, econômicas e científicas, assim como nas relações entre indivíduos, povos e países. Apenas educando pessoas para uma autêntica solidariedade conseguiremos superar a “cultura do desperdício”, que não inclui somente comida e bens mas, principalmente, as pessoas que são marginalizadas por nossos sistemas tecno-econômicos os quais, mesmo sem perceber, priorizam, em vez das pessoas, os produtos das pessoas.

6:08
A solidariedade é um termo que muitos desejam apagar dos dicionários. A solidariedade, entretanto, não é um mecanismo automático, não pode ser programada ou controlada. É uma livre resposta que nasce do coração de cada um. Sim, uma livre resposta! Quando percebemos que a vida, mesmo meio a tantas contradições, é uma dádiva, que o amor é a fonte e o significado da vida, como podemos segurar nossa vontade de fazer o bem ao próximo?

6:50
Para fazer o bem, precisamos da memória, da coragem e da criatividade. Me disseram que o TED reúne muitas mentes criativas. Sim, o amor requer uma atitude criativa, concreta e engenhosa. Boas intenções e fórmulas convencionais, muitas vezes utilizadas para satisfazerem nossa consciência, não são suficientes. Ajudemos uns aos outros, coletivamente, para lembrar que o outro não é uma estatística ou um número. O outro possui uma cara. O “você” é sempre um elemento presente, alguém para ser cuidado.

7:52
Há uma parábola que Jesus contou para ajudar a entender a diferença entre os que preferem não ser incomodados e aqueles que cuidam do próximo. Tenho a certeza que vocês a conhecem. É a parábola do Bom Samaritano. Quando perguntaram a Jesus: “Quem é o meu próximo?” Em outras palavras: “De quem devo cuidar?” Jesus contou esta história, a história de um homem que foi atacado, roubado, espancado e abandonado na estrada. Ao vê-lo, duas pessoas influentes em sua época, um padre e um levita, passaram por ele sem parar para ajudar. Após um tempo passou um samaritano, uma etnia muito desprezada em seu tempo. Ao ver o homem machucado deitado no chão, não o ignorou como se não estivesse presente. Em vez disso, sentiu compaixão por ele, compaixão que o fez agir de uma maneira muito concreta. Verteu óleo e vinho nas feridas do homem desamparado, levou-o a um albergue e pagou de seu bolso para que o homem fosse auxiliado.

9:26
A história do Bom Samaritano é a história da humanidade atual. O caminho das pessoas estão repletos de feridas sendo que tudo está centrado no dinheiro, nas coisas, e não nas pessoas. Comumente há o hábito, pelas pessoas que se denominam “respeitáveis”, de não cuidar dos outros, deixando atrás a milhares de seres humanos, ou populações, à beira do caminho. Felizmente, também existem aqueles que estão criando um mundo novo ao cuidar dos outros, mesmo às suas próprias custas. De fato, Madre Teresa de Calcutá disse: “Não é possível alguém amar, a não ser às suas próprias custas”.

10:26
Temos muito a fazer, e precisamos realizar juntos. Mas como podemos seguir juntos com todo o mal que respiramos diariamente? Graças a Deus, nenhum sistema pode anular nosso desejo de se abrir ao bem, a compaixão e a nossa capacidade de reagir aos males que nascem no fundo de nossos corações. Vocês poderiam me dizer: “Claro, estas são lindas palavras, mas eu não sou o Bom Samaritano, nem a Madre Teresa de Calcutá”. Ao contrário, somos preciosos, cada um de nós. Cada um de nós é insubstituível aos olhos de Deus. Pelas trevas dos conflitos atuais, cada um de nós pode se tornar uma vela acesa, um vestígio da luz que triunfará sobre a escuridão, e não o contrário.

11:27
Para os cristãos, o futuro possui um nome, e este nome é esperança. Ter esperança não significa ser um otimista ingênuo e ignorar a tragédia que a humanidade enfrenta. A esperança é a virtude de um coração que não se tranca nas trevas, que não habita no passado, que não apenas deixa acontecer, mas é capaz de ver o amanhã. A esperança é a porta que se abre para o futuro. A esperança é uma semente de vida humilde e esquecida que, com o tempo, se desenvolverá em uma grande árvore. É como um fermento invisível que possibilita o crescimento da massa, e dá sabor a todos os aspectos da vida. É capaz de tantas realizações, pois um pequeno lampejo de luz que se alimenta de esperança é suficiente para estilhaçar o escudo das trevas. Um único indivíduo é suficiente para que a esperança exista, e esse indivíduo pode ser você. Após isso haverá um outro “você”, e um outro “você”, e isso resultará em um “nós”. Então, a esperança começa quando se tem um “nós”? Não. A esperança começou com um “você”. Quando há um “nós”, aí começa uma revolução.

13:16
A terceira e última mensagem que gostaria de compartilhar hoje é, de fato, sobre a revolução: a revolução da ternura. O que é ternura? É o amor que se aproxima e se torna real. É um movimento que começa em nossos corações e chega aos olhos, ouvidos e mãos. Ternura significa usar nossos olhos para ver o próximo, nossos ouvidos para escutar o próximo, para escutar às crianças, aos pobres, àqueles que temem o futuro. Escutar o grito silencioso de nossa casa comum, de nosso planeta enfermo e poluído. Ternura significa usar nossas mãos e nossos corações para confortar o próximo, para cuidar dos que precisam.

14:13
A ternura é o idioma dos pequenos, dos que precisam dos outros. O amor de uma criança para com seu pai e mãe cresce através do toque, do olhar, da voz e da ternura. Eu gosto quando escuto o papai ou a mamãe falarem com seus filhos, se adaptando à criança, compartilhando o mesmo nível de comunicação. Isso é ternura: descer para estar no mesmo nível que o outro. O próprio Deus veio até nós por Jesus para se nivelar a nós. Este é o mesmo caminho que o Bom Samaritano seguiu. Esse é o caminho que Jesus seguiu. Abaixou-se, e viveu sua completa existência humana praticando a língua real e concreta do amor.

15:23
Sim, a ternura é um caminho por onde passaram os homens e mulheres mais fortes e corajosos. Ternura não é fraqueza, é fortaleza. É o caminho da solidariedade, o caminho da humildade. Permitam-me dizer em alto e bom som: quanto mais poderoso você for, quanto maior for o impacto de suas ações nas pessoas, mais você deverá agir humildemente. Ao contrário, seu poder vai arruinar você e você vai arruinar o próximo. Existe um ditado na Argentina: “O poder é como tomar gin de estômago vazio”. Você se sente tonto, embriagado, perde o equilíbrio, e acaba machucando a você e aos que estão ao redor, se você não associar seu poder à humildade e à ternura. Em contrapartida, através da humildade e do amor concreto, o poder maior e mais forte, torna-se um serviço, e é uma força para o bem.

16:52
O futuro da humanidade não está exclusivamente na mão dos políticos, dos grandes líderes, ou das grandes empresas. Sim, eles possuem enorme responsabilidade. Porém o futuro está, acima de tudo, nas mãos daquelas pessoas que reconhecem o próximo como um “você” e a si mesmas como parte de um “nós”. Nós precisamos uns dos outros. Portanto, por favor, pensem também em mim com ternura, para que eu possa cumprir a tarefa que me foi dada para o bem do próximo, de cada um, de todos vocês, de todos nós. Obrigado.