Apesar do apocalipse

O pau comia lá fora. As cercas com o logotipo do Palácio do Planalto marcavam a paisagem, junto com a pracinha ocupada por uma enorme tenda saída não se sabe de onde. Lá dentro, os cachorros velhos nem latiam mais para os estranhos que passavam. Tropeçavam nos móveis, deitavam por perto, peidavam.

E as cinco mulheres sentaram em volta da mesa e conversaram. Sobre mães, avós, filhas. Sobre a idiotice de cores para cada gênero. Sobre preconceitos. Sobre outras mulheres estupradas. Sobre o trabalho de faculdade da menina, sobre aborto. Sobre educação e escolas. E escolhas. E suas vitórias. E as derrotas.

Falaram da vida, de plantar café – e fizeram café também. E em volta das canecas, as mulheres conversaram. Contaram dos problemas. Contaram histórias. E o pau comeu lá fora. São Paulo perdeu, mas as cinco ignoraram. Três gerações. Avós, mãe, tia, filha. Todas em volta do café, da torta, da vida.

Ninguém olhou o celular, o Pokemon só apareceu para mostrar como funciona o jogo – e para minha surpresa tem um estádio na exata mesma pracinha em que tantos dramas aconteceram antes e depois das aulas durante a minha vida.

As mulheres falaram, não se emocionaram nem se inflamaram. Uma inclusive dormiu quando ouviu algo de que não gostou. Se ouviram. Uma família heterogênea, cheia de histórias juntas, misturadas. Caminhos que se escolheram, pessoas que se acolheram. Falaram da vida, do mundo, das suas relações.

E foi um bom domingo. Apesar do apocalipse.

E eles pisotearam as flores

campo de girassois

Há trabalho com o conteúdo alheio. Há a tentativa de escrever. Há silêncio – e novos rumos em gestação. Por isso os blogs ficam em silêncio, quieto, sem atualização.

Hoje, entretanto, resolvi publicar o poema que está ecoando muito aqui – por conta de zika, de discussões sem sentido, de uma preguiça ancestral de continuar sem sentido.

NO CAMINHO, COM MAIAKÓVSKI

Assim como a criança

humildemente afaga

a imagem do herói,

assim me aproximo de ti, Maiakósvki.

Não importa o que me possa acontecer

por andar ombro a ombro

com um poeta soviético.

Lendo teus versos,

aprendi a ter coragem.

Tu sabes,

conheces melhor do que eu

a velha história.

Na primeira noite eles se aproximam

e roubam uma flor

do nosso jardim.

E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem:

pisam as flores,

matam nosso cão,

e não dizemos nada.

Até que um dia,

o mais frágil deles

entra sozinho e nossa casa,

rouba-nos a luz e,

conhecendo nosso medo,

arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm

a ninguém é dado

repousar a cabeça

alheia ao terror.

Os humildes baixam a cerviz:

e nós, que não temos pacto algum

com os senhores do mundo,

por temor nos calamos.

No silêncio de meu quarto

a ousadia me afogueia as faces

e eu fantasio um levante;

mas amanhã,

diante do juiz,

talvez meus lábios

calem a verdade

como um foco de germes

capaz de me destruir.

Olho ao redor

e o que vejo

e acabo por repetir

são mentiras.

Mal sabe a criança dizer mãe

e a propaganda lhe destrói a consciência.

A mim, quase me arrastam

pela gola do paletó

à porta do templo

e me pedem que aguarde

até que a Democracia

se digne aparecer no balcão.

Mas eu sei,

porque não estou amedrontado

a ponto de cegar, que ela tem uma espada

a lhe espetar as costelas

e o riso que nos mostra

é uma tênue cortina

lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo

e não os vemos ao nosso lado,

no plantio.

Mas no tempo da colheita

lá estão

e acabam por nos roubar

até o último grão de trigo.

Dizem-nos que de nós emana o poder

mas sempre o temos contra nós.

Dizem-nos que é preciso

defender nossos lares,

mas se nos rebelamos contra a opressão

é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo.

Por temor, aceito a condição

de falso democrata

e rotulo meus gestos

com a palavra liberdade,

procurando, num sorriso,

esconder minha dor

diante de meus superiores.

Mas dentro de mim,

com a potência de um milhão de vozes,

o coração grita – MENTIRA!

EDUARDO ALVES DA COSTA

Niterói, RJ, 1936

Poema publicado no livro ‘Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século’, organizado por José Nêumanne Pinto, pag. 218.

Via Uma Coisa e Outra
Foto: jjjj56cp via Compfight cc

ser ou não ser…

aí, agora há pouco, a Denise Rangel, esta querida, selecionou um trecho que escrevi pra discutir numa Roda de Leitura.
E pronto, me comovi com a minha própria sabedoria, num dia bem estranho.
Autoestima, esta linda, vem dar na nossa praia quando a gente menos espera. 🙂

Liane, a moça que virou estrela

Liane
“A democracia é poética”, Liane Lira, via OpenKnowledge Brasil

Eu só conheci a Liane nas listas de discussão. No Ônibus Hacker, mais precisamente. Não tive a honra ou a oportunidade de conhecê-la melhor, saber quem era. Mas a vi. E, graças aos muitos amigos em comum que temos/tivemos, soube que ela morreu.

Faz tempo que não choro por conta de mortes. Uns dois anos, pra ser mais exata – 2013 levou, em pouco mais de um mês, meus dois gordos preferidos, o Márcio Ribeiro e o Danilo, cujo post-memória devo até hoje, por absoluta impossibilidade de falar sobre ele.

eu não “conheci” a Liane e me entristeci com a sua partida. E aí descobri que ela era a mulher atrás do Diego, na foto que tanto amo. E pude ler outro depoimento, que inspirado em Sagan, me fez chorar de novo.

porque a gente merece mais gente iluminada, amorosa, hacker

porque ela não está mais aqui e nós, viventes, teremos que dar um cheio de fazer mais amor; plantar mais compreensão; hackear mais a vida; nos entendermos; criar outro mundo, mais cheio de universo, menos recheado de ego;

porque a gente precisa viver assim: pra deixar todo mundo desacorçoado quando morrer.

[E eu tenho sérias dúvidas de que tenho vivido assim, então choro pela Liane e por mim]

porque eu invejo muito todo mundo que morre dormindo. Ou que cai duro (como foram o Márcio e o Danilo)

Neste dia de chuva em Sampa, minhas lágrimas são pela Liane – e por mim, falhando miseravelmente em transformar meus sonhos em realidade.

A vida, esta viagem

Jpeg

Start it; you don’t have to be fancy.

Keep moving; you don’t have to go crazy.

Visualize; you don’t have to admit it.

See the end result; it doesn’t have to be material.

Expect miracles; they don’t have to be huge.

Pretend you’ve arrived; you don’t have to dance on tables.

And above all else, Lucia, have fun.

This is why you started it, right?

Life, what a trip –
The Universe