a tragédia do dente perdido

Começou com uma dor de dente. Achei dentista possível (ô serviço caro).

Veio o orçamento que destruiu todos os planos de sucesso nas finanças. Junto com isso instalou-se o cansaço de lutar e perder. Sempre.

Derrotada, suportei o barulho horrendo do motor, a anestesia chata, os cutucões em partes que nunca imaginamos existirem. Estóica. Sobrevivi com um curativo.

E, no dia seguinte, o dente quebrou. Em pleno carnaval. Sem socorro possível. De novo a estóica veio dar na existência. Comidas molinhas, mastigar do outro lado, cuidado pra escovar direito e não arrancar o pedaço quebrado.

Ao voltar à cadeira da dentista, o fato do dente quebrado – e perdido. O primeiro – sisos nunca contam. A tristeza de olhar pra si e saber que não tem mais forças pra lutar e fazer dinheiro. Desistência. Saudades de um tempo em que havia socorro possível. Vontade de sumir, morrer. O desejo de outra existência. O medo de morrer. A paranóia modo intenso tomando conta e a sujeita rendida.

As lágrimas foram a única reação possível. Muitas, grossas, embaladas por soluços e mais tristeza.

Haja paciência e auto-estima. Haja vontade de viver. Porque se saí de um certo buraco, não há de ser este que irá me levar. É mais um caldo. Meio sufocada, saio do mar cambaleante, pernas fracas, com cãimbras. Viva.

Hei de sobreviver.

 

meio a meio

Tô com uma tristeza que não me abandona.
Não sei o que fazer com ela.
Tem horas que vira raiva.
Tem momentos que vira choro.
Em outros, quero colo.
De verdade, queria quebrar tudo.
Talvez voltar a ter 20.
(com a quase certeza de cometer os mesmos erros, quem garante que voltar no tempo permite levar aprendizado?)
Anestesia sempre tem.
Filmes, séries, um joguinho aqui e outro ali.
E, afinal, qual é a tristeza?
Primeiro, acho que tem um plural na pergunta.
São tristezas. Algumas.
Segundo, tenho quase certeza que o importante, além da descoberta, é a cura.
Ou a convivência.
Saber que a luta não termina e que viver é muito mais que o drama
O meu dramalhão tem sentido? Nenhum
E me despedir dele tá sendo difícil.
É o luto pelo dramalhão.
Pronto. Escrevendo, eu me entendo.

A beleza da fúria

Thunderstorm.

Dias furiosos. Eles aconteceram e não foram poucos.

Do tédio à fúria pura e simples, fúria.

A grande diferença, até ontem, foi a não explosão. Enfurecer e sentir a fúria, uma verdadeira turbina de força e um motor pra fazer o que queria. No caso era nada – e ganhar num determinado lance. Ganhei. Demorou foi pra sentir a alegria da fúria.
Fúria, furiosa, enfurecida.
Foi um aprendizado intenso, profundo e imenso que aconteceu sozinha, em silêncio. Gostei. E junto com a fúria, para minha surpresa, nasce alegria.

 

Foto: Unsplash

Mulher Maravilha e o machismo nosso de todo dia

Saí da terapia e fui ao cinema (finalmente). Queria assistir Mulher Maravilha na tela grande, numa sala escura. Missão cumprida.
Todavia, entretanto, contudo…
Como é que a gente dá conta de viver num mundo de macho?
Impressionante como até quando a personagem principal é uma mulher, o tal do coadjuvante tem que ser homem.

Ela não pode ser a amazona pegadora – que é o destino de toda amazona, aliás. Tem que se apaixonar e ser uma “deusa virgem” [pra entender os arquétipos femininos, recomendo fortemente o livro As Deusas e a Mulher, de Jean Shinoda Bolen].

A heroína encarnada por Gal Gadot é êxtase e dor. Tão bom ver uma mulher chutando bundas. Tão ruim ver na tela, em todos os momentos depois que Diana chega “ao nosso mundo”, o que vivemos todas o tempo todo.

Para quem já se deu conta da extensão e profundidade do machismo, é quase doloroso ver uma deusa ser diminuída como todas nós. Ainda um objeto, um enfeite – mesmo diante de todo o seu poder, força e conhecimento.

A deusa que tem que se apaixonar e ficar uma eternidade encarniçada com um homem (quem de nós nunca, né, amoras?). A deusa que abaixa a cabeça e atende o comando do omi. Por que? Por que?

E, sim, a gente aceita o comando do omi. Seja ele Ares ou um reles mortal. Precisamos? Devemos?

Só quero ver se DC vai dar conta de sustentar a “inovação” e igualar a personagem no Liga da Justiça, previsto pro segundo semestre. Suspeito fortemente que a nossa heroína voltará ao papel reservado a todas nós: secundário, menor, um degrau a menos para Diana Prince.

O filme, como um primeiro passo, é ótimo. Pra Hollywood começar a ganhar pontinhos, tem que soltar um filme por mês com mulher protagonista – forte e poderosa, ok?

A gente sabe que não vai rolar. Até agora, na escala de empoderamento feminino, a Marvel, com Electra e Jessica Jones, tá levando vantagem. A dona Jessica dá de 20 a zero na Mulher Maravilha em termos de liberdade e igualdade.

Adorei o filme. Odeio machismo. Igualdade é fundamental. [e, sim, Diana está certa: nenhuma mulher precisa de homem pra ter prazer, desculpe mr. Freud]

Mulher Maravilha, com Gal Gadot, é um ótimo filme de heroína e ação. E precisamos de mais heroínas. Cadê manas pra construir mais mulheres fodásticas e hipnóticas como Diana? Precisamos.

emoções

Há muito tempo atrás aprendi que emoções são o que nos move. Nosso motor.

São as emoções – e não a lógica, muito menos as intenções – que nos levam à frente, param, enfiam no buraco, jogam para fora do mundo.

Emoções. E mover. motores.

Mais ou menos na mesma época investiguei também as emoções “sombrias”. Raiva, ódio, tristeza.

Hoje de manhã tive que enfrentar o fato de que não, eu não lido bem com emoções.

A bordo da minha armadura (que uso para evitar a dor) me torno insensível. A tudo. E aí está o x da questão.

Como tirar a armadura que visto todos os dias ao sair da cama?