o dia das mães. junto com ele a lembrança e a paralisia. E encontro uma Cora pelo meio do caminho
Quando penso em você Fecho os olhos de saudade Tenho tido muita coisa Menos a felicidade
Correm os meus dedos longos Em versos tristes que invento Nem aquilo a que me entrego Já me dá contentamento
Pode ser até manhã Cedo, claro, feito o dia Mas nada do que me dizem Me faz sentir alegria
Eu só queria ter do mato Um gosto de framboesa Pra correr entre os canteiros E esconder minha tristeza
Sua música preferida. São nove anos convivendo com sua ausência. “Às vezes o coração, rasgado pela dor, vira retalho. Recomenda-se, nestes casos, costurá-lo com uma linha chamada recomeço. É o suficiente.” Cora Coralina
Que interessante.
Eu sempre tive opiniões próprias, muito minhas.
Acabo de perceber que raramente as expressava claramente. E que agora, por algum motivo (sim, eu tenho cá minhas suspeitas) eu consigo as dizer, desenhar e mostrar.
A minha primeira luta na vida foi por independência. Me lembro de, aos 13, querer ser “dona do meu nariz”. A expressão era a tradução da minha vontade de não ter limites, poder fazer o que quisesse, como quisesse, na hora que desejasse.
Mal sabia eu que o nome disso é liberdade – e que vem junto com uma outra palavra pesada, a responsabilidade. Graças a uma combinação muito especial de fatores, eu, a rebelde, sempre fui uma pessoa disciplinada. Aparentemente impaciente, também tenho o dom de esperar e trabalhar por objetivos que me parecem impossíveis.
Nunca liguei para impossibilidades. Me incomodam, de verdade, as injustiças. Eu nunca entendi como ou porquê virei jornalista, apesar de obviamente ter o dom da escrita e da expressão. Alguém sugeriu, fui lá e fiz, porque não conseguia perceber outra possibilidade para seguir em frente. (afff)
Trinta anos depois, uma carreira relativamente bem sucedida, divertida, interessante, eu só quero “outra coisa”. Qual? Não sei.
Acabo de repintar o apê. outras cores, paredes limpas (e o chão emporcalhado de tinta, que raiva) e mudanças na organização me ajudaram a repensar.
Quero continuar a viver no Brasil?
Como quero que a vida siga?
Enquanto vou imaginando e fazendo as respostas, encontro anotações minhas que dizem muito.
O que eu quero contar?
Medo de decidir.
O susto de ser livre.
Sou livre se não decido?
O lugar estranho entre a falta e a presença
(em algum momento de 2019)
Tudo é atravessado, temperado e vivido com a falta da minha mãe.
Os olhos permanentemente molhados. Eu com as roupas dela. Ela em mim, eu nela. Não mais filha, só Lucia. Encontrar nossas fotos, bilhetes. Ver sua letra em cartinhas, no meu livro do bebê, num envelope esquecido numa gaveta. Seu nome sempre comigo, nas fichas de atendimento do SUS, na carteira de trabalho, no passaporte. Eu e ela, ela e eu. E a saudade monumental, total, poderosa.
Desse centro doloroso eu sinto que nasce uma nova mulher, outra. Há uma certa revisão de escolhas, há silêncio e reflexão. A respiração provê (ou se suspende) o pulso que vem com alívio, culpa e um amor que já não tem um quem. Amor que sobrevive e parece que se intensifica com a ausência.
Nós morremos, esse pode ser o significado da vida. Mas nós fazemos linguagem. Essa pode ser a medida de nossas vidas.
Toni Morrison, ao receber o Prêmio Nobel de Literatura
Minha mãe morreu segunda-feira, dia 17 de junho. A última imagem dela foi numa cama de UTI entubada, cheia de cânulas e tubinhos, com monitores de medicamento e batimentos cardíacos. Lembro (como não sei) que a primeira linha marcava 110, a segunda 68 e a última 33,2 graus. Eu não sou médica nem enfermeira, mas o olho registrou. Também ficou a noradrenalina, um dos remédios.
Mas a Vera de quem vou me lembrar de verdade é outra – algumas versões aí em cima. Será a mulher que sempre arrancou a própria pele para ajudar os outros. A amiga alegre da Iara, da Cândida, da vó Nina, da Cleide e tantos outros. A prima que adorava seus primos Ferreira Cintra, a tia que cuidava dos sobrinhos Botelho, babava com as fotos e notícias dos dois sobrinhos-netos, e só não ficou mais perto dos Teixeira de Freitas porque a gente tem mesmo esse defeito genético de ser um tantico distante – mas também somos seres amorosos, garanto a vocês. Minha mãe teve muitas cunhadas que amou. A Tia Maria Helena, mãe do João Paulo, do Luiz Francisco, da Maria Fernanda. A Tia Mara, minha madrinha emérita, mãe da Camila, do Thadeu e do Gustavo. A Tia Cristina, com quem organizou tantos Natais, Páscoas e sabe-se lá mais o quê, mãe do Marcos, do Pedro, Maria Marta e Maria Teresa. Tia Marisa, mãe do Dênis e do César. Tem uma comadre, inclusive, que nem cunhada era: Maria Luiza, mãe do Álvaro, da Roberta e da Drica, irmã do tio Orlando esse sim, cunhado. A Vera tinha um enorme prazer de ir ao Facebook e ver seus alunos casando, seus muitos colegas viajando (oi Beati), os filhos crescendo, os netos nascendo, as amigas fazendo coisas. Nos últimos seis meses, foi sua maior companhia e alegria, além dos filmes e séries da Netflix, os cuidados muitos e absolutos do meu irmão André que fez de tudo pra tornar a sua vida mais confortável e feliz. A grande luz dos seus dias, depois que o Danilo, o seu (o nosso) grande amor morreu, era o Caio Henrique. Pra este neto tudo. Ontem eu vi esse menino, do alto dos seus 8 anos, ser mais corajoso que muito marmanjo sessentão. Foi lá no caixão, viu a Vó Vera, explorou a morte com a leveza e tranquilidade que todos deveríamos ter. Não vou dizer que não dói. Roubaram meu coração, tenho um buraco no peito, tá doendo tudo (e claro que estou gripada). Já sei que vai doer por muito tempo. Foi esta a minha mãe, que me amou enlouquecidamente, que arrancava a roupa do corpo pra mim e pros meus irmãos. Tá doendo e não é pouco não. Eu sei que a dor há de passar, que um dia as lágrimas secarão. E vai ficar só o que a Vera realmente foi: esse farol potente de amor, carinho e cuidado. Uma força da natureza que nunca poupou nada, que deu tudo e pagou todos os preços mais dolorosos por sua generosidade, ingenuidade e amor. Agora, no dia seguinte do seu sepultamento, veio a resposta que eu nunca tive, que está me assombrando há alguns anos já. É muito melhor você dar tudo o que quiser e ser traída, maltratada, machucada (usem a figura que quiserem) do que não dar. Porque emocionalmente, quando você dá, você só ganha. Cabe a quem recebe fazer o melhor uso da doação.
Vai em paz, mãe. Te amo. E povo que fica: bora viver. Íntegros, de verdade, sem meias palavras, sentimentos ou o que for. Porque se vida é uma só, resta-nos vivê-la plenos
Luto mesmo. Tô me batendo comigo, entre a tristeza e a sensação de leveza e liberdade, com a minha dor e a alegria de saber que ela já não tem dor…Enquanto isso ou bem tô sem banho, de pijama, roupão e pantufas, ou bem no uniforme da mãe: bonitona. era assim que ela gostava de me ver: produzidinha, combinadinha, elegantona no padrão dela. Tem o meu toque sempre. seja no brinco, no anel ou no tênis rosa choque.