Wish I could capture it

Parece que ângela, lá de onde está, conspirou. A lua cheia de hoje, depois do pôr-do-sol, depois do amanhecer – junto com este frio bão, sequinho e iluminado – me embalou. Confesso: quem me inspira é o velho filósofo, André Comte-Sponville, o salvador de almas. Acompanhado, como sempre, pelo velho Keleman, o fazedor de corpos. Estou há dois dias com o pequeno volume andando comigo… me ilumina a vida. Olha só alguns trechos que marquei (entre outros que já estavam marcados das leituras anteriores):

“Não há amor feliz, nem felicidade sem amor. Não há amor feliz enquanto falta ao amor seu objeto. Não há felicidade sem amor, enquanto a felicidade se regozija. (…) mas o amor vai além do casal, além até da família (…) Não há sabedoria que não seja de alegria; não há alegria que não seja de amar. (…) Regozijar-se com o que é, em vez de se entristecer (ou só se regozijar de forma inconstante) com o que não é. Amar, em vez de esperar ou temer. “
Concluindo, lembrarei simplesmente que o contrário de esperar não é temer, mas saber, poder e regozijar-se. Numa palavra, ou antes em três, o contrário de esperar é conhecer, agir e amar. É a única felicidade que não nos escapa. Não o desejo do que não temos ou do que não é (a falta, a esperança, a nostalgia), mas o conhecimento do que é, a vontade do que podemos, enfim o amor do que acontece e que, portanto, já nem precisamos possuir. Não mais a falta, mas a potência, não mais a esperança, mas a fidelidade e a gratidão.
Só esperamos o que não depende de nós; só queremos o que depende de nós. Só esperamos o que não é, só amamos o que é. (…) trata-se de aprender a desejar o que depende de nós (isto é, aprender a querer e a agir), trata-se de aprender a desejar o que é (isto é, amar), em vez de desejar sempre o que não é (esperar e lamentar).
(…)Não tentem amputar a sua parte de loucura, de esperança, portanto de angústia e de temor. Aprendam, ao contrário, a desenvolver sua parte de sabedoria, de potência – em outras palavras, de conhecimento, ação e amor. Não se impeçam de esperar: aprendam a pensar, aprendam a querer um pouco mais e a amar um pouco melhor. (…)
A felicidade não é um absoluto, é um processo, um movimento, um equilíbrio, só que instável. (…) Paremos de sonhar nossa vida!
Não se trata de impedir de esperar nem de esperar o desespero. Trata-se, na ordem teórica, de crer um pouco menos e conhecer um pouco mais; na ordem prática, política ou ética, trata-se de esperar um pouco menos e de agir um pouco mais; na ordem afetiva ou espiritual, trata-se de esperar um pouco menos e amar um pouco mais. ”

Fim da transmissão…

Lemas, efeitos e conseqüências

quando a esperança vier, esquece e trabalha
quando a dor quiser entrar, coloque de lado e trabalhe mais
quando você achar que não pode mais, siga em frente: trabalhe!
e se a falta, a dor e a morte entrarem no seu coração?
Não esmoreça, trabalhe mais um pouco!

Esta é uma velha estratégia numa nova vida. Trabalhar para não sentir. Trabalhar para não pensar. Trabalhar para não olhar para mim.
Segunda morreu a Ângela, mulher que eu nunca conheci. A história está mais ou menos contada no blog da Renata Simões, que era amiga. Não sei bem quem sou: quem foi ou quem ficou. Estou nos dois, meio morta, meio viva. Deixei um comentário lá que é quase um bilhete suicida… que horror! Pelo menos agora, entre um trabalho e outro, há água, muita água para escorrer. Ainda bem.
O susto se desmancha e a vida volta. Depois da queda, levantar-se e seguir. Tremer, solidificar a nova forma e reaprender o caminho. Tantas vezes quantas necessárias forem. E prometo nunca deixar a vontade de desistir tomar o meu coração.

Ah, o amor

Por Marly de Oliveira, amiga de Clarice Lispector, em O Sangue nas Veias

Uma gema que fosse toda fria,
mas na aparência, e toda quente por dentro
e que tivesse a lisa superfície
do que se usa com grande atrevimento,
mas no íntimo; uma gema toda calma,
quase uma água esse fogo nos doendo,
um silêncio que fosse uma cascata,
mas do que o próprio fogo fosse o centro
e de que o próprio fogo fosse água.
Assim o amor, assim o que se espalha
e não se entorna, e vive do que vive,
e é móvel e capaz de ter limite;
assim o que se adestra e se dilata
como o sangue na veia, e é todo livre.