disparado por Tucori

Quando 1988 começou eu era filha de santo, frequentava uma casa de umbanda e achava que tinha que “me purificar” e parar de ser doida. Aos 23 parecia que a vida era comprida e duraria para sempre. Tudo começou num “trabalho” na Praia Grande, lotada de gente, de trabalhos, de congestionamento. Foi o ano em que resolvi terminar a tal da faculdade, que tinha “largado” por conta do primeiro emprego, na Rádio Cultura. Sim, eu comecei como assistente de produção por lá – e também produzia o guia do ouvinte, uma revistinha com toda a programação da Cultura FM…
Enquanto eu aprendia muito sobre música erudita – honra máxima, com os maiores maestros do Brasil – e lutava para chegar na hora às aulas noturnas, no toca-fitas do fusca amarelo recorria a titãs, legião, paralamas, the cure, joy division em fitas k7 muito das bem-gravadas para driblar a encheção das 19h, que atendia pelo nome de “Hora do Brasil”.
Rabiscava poemas em cadernos que guardo até hoje. Me encantava pelos homens errados – como ainda faço hoje. Adorava o silêncio da madrugada, e isso também não mudou. Era hora de fazer tec-tec-tec na máquina de escrever eletrônica da IBM… como é que a família conseguia dormir? Fumava, tomava café e ia até o meio da madruga enchendo folhas e folhas de hai-kais, poemas e muitos desabafos.
A vida parecia não ter limites. Até que outubro ou novembro chegou. Uma noite – acho que foi quase exatamente há 20 anos, tipo dia 22 de outubro, aniversário de uma certa prima -, rolou um mega estresse e meus pais se separaram. Aquele deus-nos-acuda de gritos, berros, brigas. Não conto os detalhes, mas foi feio, feio.
88 foi ano de conhecer a Yara. Foi ano de me formar na faculdade e conseguir o tal do MTB, o registro de jornalista profissional. De não ter limite algum. De jogar muito I Ching. De deixar de lado o terreiro de umbanda e tentar “voltar à casa”. De colocar um pé no dark, outro no punk e curtir muito beber, dançar, enlouquecer.
Foi ano de constituição novinha em folha para o Brasil. Tempo de colecionar LPs. Tempo de ensaiar vôo solo para encarar de frente som e fúria, separação e loucura – perder o pé total. E publicar um pequeno poema concreto em alguma coletânea. Tempo…
é engraçado como a gente precisa se perder pra se achar e, sem saber, acaba fazendo isso bem na hora certa e no momento oportuno. esse seu texto me deu vontade de escrever um outro texto e isso é bonito. é bom ver a vida se multiplicando em vida, a arte se multiplicando em arte. ante tudo que tem se multiplicado hoje em dia, fico honrado em ter, de alguma forma, contribuido para que esse post lindo nascesse.
beijo, lu. amei o texto e (hehehehehe) aguarde o próxmo capítulo.
que delícia… continua contando, plis
Ah, as voltas que o mundo dá… meu 88 não teve graça nenhuma (embora tenha trazido mudanças, pra variar) mas meus 23 anos bem que foram intensos.
acho fundamental em uma certa época da vida se perder e depois conseguir se encontrar, acho que mesmo tendo momentos nem tanto saudaveis, valem a pena, apenas lamento aqueles que se perderam e nunca conseguiram voltar, esses com certeza perderam e continuam perdendo, por nem mesmo poder contar como foi naquela época muito doida, pois a vida em si se mistura e confunde com a loucura…bjs
adorei esse espaço, aind não conhecia.
joaninha,
a vida continua….vc vai ter ainda muitos 88… bjs
eu acho que respondi pra todo mundo por e-mail. obrigada gente, pelo apoio. Agora,vejam, tem emoção maior que a tua mãe (veroca) vir aqui, ler o post e deixar comentário? Ganhei a semana!!!
Ah, se todos os loucos fossem como tu.
Há uma luz no caminho, basta segui-la, né mesmo?
Ótima semana, querida
beijo, menina
seu texto me fez perceber que estou vivendo exatamente da maneira que se deve
lendo o presente
e esperando do futuro apenas o que foi plantado
Um abraço